A intensa sobrecarga diária do envolvimento desportivo, originam no atleta, compromissos de crescente complexidade no ombro, que exigem nos dias de hoje, atitudes de diagnóstico e tratamento determinantes.
Do ponto de vista anatómico e biomecânico, o ombro é constituído por um complexo sistema de articulações ou mecanismos articulares, que em condições normais funcionam em perfeita sincronização. Podemos considerar cinco articulações funcionais, nessa complexidade do ombro.
A Gleno-umeral, a Sub-acromial, a Acromio-clavicular, a Esterno-clavicular e a Escapulo-toráxica.
O ombro encontra-se entre as áreas anatómicas mais fragilizadas, quer por lesões do foro traumático, quer por lesões de sobrecarga, na prática desportiva.
Em termos absolutos, o numero de atletas com patologia do ombro, tem vindo a crescer de modo significativo, dando origem não só a uma elevada morbilidade, mas e também, a consequentes custos sociais associados.
Elevam-se pois não só o consumo de serviços médicos, de medicamentos e tratamentos vários, mas também e sobretudo, o numero de dias de sofrimento e de consequente incapacidade para a prática desportiva.
As razões do sofrimento destes atletas, são várias, mas a maior parte das vezes estão relacionadas com gestos desportivos diários, que obrigam ao uso frequente e muito repetido dos membros superiores, originando microtraumatismos de repetição .
A dor subjacente às designações popularizadas de “ ombro doloroso “ ou “ dor no ombro “ ou até mesmo de “ dor no braço “, normalmente para além de ser centrada naquele, apresenta-se com discreta intensidade, de modo insidioso por surtos e irradia quase sempre para o terço proximal do braço, numa área que se estende até um palmo da raiz deste, podendo muitas vezes ser apenas a sua única localização de referência.
Esta dor tanto pode surgir durante como após a actividade desportiva, mas também pode só aparecer ou intensificar-se apenas, no período de repouso nocturno ou de sono, dependendo esse aspecto da evolução clinica em causa.
Pode mesmo só se manifestar com um ou outro gesto mais repentino. Há em associação e consistentemente uma limitação da elevação lateral ( abdução )do braço .
Esta é a forma mais usual do doente começar a notar que alguma anomalia se passa no seu ombro.
Uma significativa percentagem dos diagnósticos precoces efectuados e subjacentes á designação de “ ombro doloroso “, está na dependência de uma adequada avaliação clinica.
Um exame clinico bem sistematizado e pormenorizado, associado á experiência clinica do ortopedista, levam a que com relativa frequência não seja sempre necessário, para além de um simples Rx, a realização de exames complementares sofisticados, proporcionando de imediato ao atleta, uma especifica actuação terapêutica. No entanto importa referir que os exames complementares são fundamentais na complementaridade do diagnóstico, sobretudo quando existem sintomas sobrepostos ou queixas vagas que dificultam o mesmo.
Apesar do exposto e não infrequentemente, todo este conjunto de diferentes situações clinicas de “ ombro doloroso ”, são deficientemente avaliadas, apoiadas e tratadas, com consequente arrastamento das mesmas, o que acaba por comprometer de modo definitivo as actividades desportivas do atleta.
A grande mártir de “ ombro doloroso “, provocado quer por traumatismos directos ou indirectos, quer por sobrecarga mecânica, é a articulação sub-acromial. É aqui que reside a causa mais frequente de dor no ombro, o conhecido síndroma do conflito sub-acromial “ impingment “, desenvolvendo-se nesta articulação e ao longo do tempo, o seguinte cortejo patológico :
Primeiro, bursite ( inflamação e derrame da bolsa sub-deltoideia ). Segundo, tendinose ( com ou sem calcificação da bolsa ) e com o músculo supra-espinhoso a ser o mais atingido. Terceiro rotura tendinosa e mais tarde, alterações degenerativas da gleno-umeral .
Para este compromisso e no que diz respeito à sua orientação terapêutica, na fase inicial, apenas justifica recorrer-se a um repouso parcial do membro afectado ( reduzir a actividade desportiva ), bem como a aplicação local e regular ( 20 minutos em cada hora diurna ) ao longo do dia, de gelo - crioterapia - e a toma regular de um analgésico ( paracetamol ) ou anti-inflamatório ( ibuprofeno ou diclofenac ) de baixa agressividade.
Numa fase mais evoluída do processo, as medidas terapêuticas passam a ter que ser um pouco mais intervencionistas, pelo que há necessidade de se recorrer com frequência a uma ou mais infiltrações locais, de um potente anti-inflamatório ( betametasona ) com seguimento de protocolo de recuperação funcional. ( anexo I do CNAD )
Para além destes procedimentos, há necessidade em muitos casos, de se actuar cirurgicamente, com o intuito de anular a causa ou causas subjacentes deste conflito e corrigir as sequelas.
Com as técnicas cirúrgicas minimamente invasivas de que hoje dispomos, apenas se necessita de um período de pouco mais de oito horas de internamento. In extremis, esta é a solução definitiva para a resolução deste problema e com resultados de elevada eficácia.
Em qualquer dos envolvimentos terapêuticos anteriormente enunciados, há sempre necessidade de se obter a melhor colaboração da parte do atleta, em particular para a realização de um programa complementar de recuperação funcional activa assistida, sempre a ser desenvolvido e apenas, a nível do domicilio.
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