

Conhecidas desde a antiguidade consideravam-se as fracturas
típicas dos recrutas após longas marchas não habituais em terrenos duros; representam
lesões de uso excessivo, cada vez mais frequentes no meio desportivo (cerca de 15% das
consultas em Medicina do Desporto), devido ao aumento da carga de trabalho imposta pela
cada vez maior competitividade; afectam grande número de atletas, sendo responsáveis por
diminuição do rendimento desportivo e às vezes mesmo por situações graves de
resolução difícil.

São fracturas ósseas completas ou incompletas que se
encontram em osso normal se sujeito a grandes solicitações (quer a grande número, quer
a grande força), sem no entanto haver história de um traumatismo único de intensidade
suficiente para produzir uma lesão semelhante.

Afectam sobretudo o adolescente e o adulto jovem, embora
possam aparecer em qualquer idade, estando relacionadas directamente com a carga de treino
ou competição (incidência de 7 em cada 10000 horas de treino), e não têm
predilecção por qualquer sexo (afectam de igual modo ambos os sexos).

Ao contrário do que clássicamente se pensava, a
localização mais frequente é a tíbia (50%) e não os metatársicos (10%); outras
localizações são o escafóide társico (15%), o perónio (12%), o fémur, as
vértebras, a bacia, as costelas, a clavícula, o úmero, o cúbito, a rótula e mesmo os
sesamóides.

Sabe-se que microtraumatismos repetidos, um treino intenso
e prolongado, uma retoma desportiva após paragem sem preparação adequada, o calçado
inadequado (muito usado ou sem características específicas), o terreno impróprio (muito
duro), ou mesmo certas doenças gerais (hiperparatiroidismo, osteoporose,...) ou ósseas
(osteogénese imperfeita, mielomeningocelo, doenças metabólicas, doenças
neurológicas,...) podem causar ou favorecer o seu aparecimento.

Com a solicitação exagerada do tecido ósseo verifica-se
fragilização local do mesmo com o aparecimento de pequenas rupturas da cortical, que
posteriormente vão provocar uma resposta do osso, com produção de osso novo, formação
de calo, seguida de regresso ao estado anterior à fractura.

A característica principal é uma dor que surge com o
movimento e desaparece com o repouso; normalmente localiza-se fora das articulações (que
estão normais), surge cerca de 15 dias após o aumento da carga de trabalho, de forma
progressiva e dificultando ou impedindo mesmo a actividade desportiva habitual (por vezes,
mesmo as actividades do dia-a-dia); acompanha-se às vezes de sinais inflamatórios
locais, com dor à palpação, e se no membro inferior pode causar claudicação.

É feito com base na clínica e também em alguns meios
imagiológicos (radiograma, cintigrama, TC, RM); o radiograma faz o diagnóstico em 50%
dos casos mas só é positivo a partir da 2ª semana; por vezes são necessárias
incidências complementares (oblíquas, axiais, tangenciais) e mesmo tomografias e
xerografias; mostra desde uma solução de continuidade, até um calo ósseo exuberante; o
cintigrama osteo-articular é muito sensível, sendo positivo logo nos primeiros dias, mas
pouco específico, pois muitas outras situações podem dar imagens semelhantes; a TC e a
RM só excepcionalmente serão usadas e principalmente para diagnóstico diferencial com
outras situações.

Devemos pensar que outras situções podem confundir-se com
fracturas de fadiga; a periostite tibial, uma inflamação do periósteo anterior e médio
da tíbia, situação muito frequente nos futebolistas, pode simular uma fractura de
fadiga. Algumas tendinites (do tendão de Aquiles) ou bursites (calcaneanas) ou mesmo
apofisites (doença de Osgood-Schlater) podem também, pela sua localização, ser
confundidas com fracturas de fadiga; certas inflamações ou infecções e alguns tumores
são também situações em que devemos pensar por algumas semelhanças com as fracturas
de fadiga.

Geralmente o atleta com fractura de fadiga diminui
espontâneamente a actividade desportiva, conseguindo com isso a cura espontânea, mas se
tal não acontece, pode verificar-se evolução para uma fractura verdadeira com todos os
malefícios daí consequentes (necessidade de tratamento ortopédico ou cirúrgico, atraso
de consolidação, pseudartrose, etc.).

O repouso, quer relativo (total da parte atingida, ou
reduzindo a carga sobre a parte atingida), quer absoluto (segmentar ou não) associado ao
gelo local e anti-inflamatórios, consegue a cura na grande maioria das situações; por
vezes é necessário imobilizar o segmento atingido, e outras situações necessitam mesmo
de cirurgia; o trabalho de ganho de amplitude e uma adequada tonificação e
fortalecimento musculo-tendinoso são fundamentais para a prevenção destas lesões.
Retoma desportiva: deve ser progressiva (consoante o desaparecimento da dor), só após
correcta preparação musculo-tendinosa e articular, atingindo o nível "normal"
só após desaparecimento dos sinais radio-cintigráficos (3º,4º mês).

Atletismo * tíbia (proximal ou distal), escafóide
társico, fémur (distal), metatársicos. ginástica * vértebras (lombares),
tíbia (distal). patinagem/hóquei * perónio (distal). basquetebol *
tíbia, escafóide társico. futebol * tíbia, rótula, metatársicos. basebol *
úmero, tíbia. natação * tíbia (proximal). ténis/voleibol * cúbito. golfe
* costelas.
Fractura de fadiga da bacia:
aparece geralmente depois dos 40 anos, localizando-se aos ramos isquio e ilio-púbicos,
mais frequente em fundistas, originando dor localizada à virilha ou púbis e
acompanhando-se com claudicação do lado afectado; o diagnóstico é feito com auxílio
dos radiograma e cintigrama e o tratamento consiste em repouso, por vezes no leito,
durante 4 semanas.
Fractura de fadiga do colo do fémur:
localização rara, surgindo geralmente depois dos 20 anos, cerca de um mês após o
aumento da actividade física, com dor localizada à virilha ou face externa da anca que
se agrava nas extensão ou flexão máximas, associada a claudicação; o radiograma é
negativo em 50% das situações, sendo o diagnóstico sugerido pelo cintigrama; o
tratamento consiste na descarga (com apoio de canadianas) durante 4-6 semanas.
Fractura de fadiga da tíbia:
representa a localização preferencial destas fracturas (geralmente proximal ou distal),
sendo frequente sobretudo nos ginastas, corredores, dançarinos, esgrimistas e
futebolistas; origina dor com sinais inflamatórios e claudicação; o diagnóstico é
auxiliado pelos radiograma e cintigrama (devendo-se ter em atenção situações com
clínica semelhante: artropatia, periostite, sindroma compartimental) e o tratamento
consiste em descarga durante 4-6 semanas.
Fractura de fadiga do perónio:
localização muito menos frequente que a tíbia, geralmente no terço inferior
(confundindo-se com artropatias ou entorses do tornozelo), é típica dos saltadores,
dançarinos, velocistas, "corredores de domingo"; o diagnóstico é auxiliado
pelos radiograma e cintigrama, e o tratamento consiste em descarga durante 6 semanas
Fractura de fadiga dos metatársicos:
trata-se da clássica fractura de fadiga, durante muito tempo considerada a localização
mais ferquente; atinge mais vezes os 2º, 3º e 4º metatársicos, raramente afectando os
outros dois; geralmente apresenta-se como localização única e na parte média do
matatársico, originando dor com tumefação e sinais inflamatórios locais; o
diagnóstico é auxiliado pelos radiograma e cintigrama, e o tratamento consiste na
descarga durante 3-4 semanas; é importante o diagnóstico diferencial com infecção,
artrite, tumor e doença de Morton.
Fractura de fadiga do calcâneo:
representa 20-75% das fracturas de fadiga do pé, muitas vezes bilateral, mais frequente
nos saltadores e nos pra-quedistas, origina dor no calcanhar com tumefação e grande
impotência na marcha; a tendinite do tendão de aquiles, a bursite calcaneana, a
fasceíte plantar, infecções e tumores podem levar a confusão; o diagnóstico é
auxiliado pelos radiograma e cintigrama e o tratamento consiste na descarga durante 4
semanas.
Fractura de fadiga do escafóide társico:
acontece por sobrecarga na arcada interna do pé nos velocistas, saltadores e
futebolistas, originando dor e tumefação na face interna e dorsal do pé com dificuldade
na marcha; o radiograma com incidências especiais, e o cintigrama auxiliam o
diagnóstico, e o tratamento consiste em descarga durante 4 semanas.
Fractura de fadiga das costelas:
facilitadas por falência do músculo grande dentado, localizam-se mais frequentemente às
4ª e 7ª do lado dominante, nos golfistas, remadores, halterofilistas e nos rugbistas; os
radiograma e cintigrama auxiliam no diagnóstico e o tratamento consiste no repouso e no
fortalecimento muscular do grande oblíquo.
©1997 Olympica Internacional
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