
A década de 80 e em particular a sua segunda metade, foi
em Portugal, decisiva para o desenvolvimento da artroscopia e fundamentalmente da cirurgia
artroscópica do joelho.
Do significativo atraso nesta área em relação ao resto
da Europa, tem-se vindo a recuperar muito rapidamente não só no aspecto da sua
aceitação por parte de médicos e doentes, mas principalmente na prática de
procedimentos cirúrgicos, alguns bastante complexos, que se podem incluir com todo o
direito, na chamada cirurgia de ponta.
Concomitantemente a este crescente aumento de popularidade
da cirurgia artroscópica do joelho, tem-se vindo a notar também um significativo
interesse em explorar artroscopicamente outras articulações. Daí que presentemente o
ombro, o cotovelo, a tibio-társica sejam as já mais envolvidas, esperando-se que a anca
e o punho, em futuro relativamente próximo, deixem de ser curiosidade de investigação.

O diagnóstico da dor do ombro , sempre tem
sido problemático. Os exames clinico, radiográfico, ecográfico e a
ressonância magnética nem sempre proporcionam informações
suficientes para um diagnóstico
de certeza.
A possibilidade de visualizar o interior do ombro, veio
aumentar significativamente o nosso conhecimento da patologia e dos mecanismos
patológicos da articulação. No entanto e nesta ocasião, importa fazer uma advertência
e um esclarecimento muito importantes, pois que a artroscopia e a cirurgia artroscópica
do ombro, muito menos, não são compativeis de modo algum com principiantes, por melhor
boa vontade que tenham. Para se iniciar no envolvimento artroscópico do ombro, há
necessidade de se ter razoavel treino em todos os aspectos da cirurgia artroscópica do
joelho. Esta é uma verdade universal que quem se dedica à artroscopia conhece
perfeitamente e respeita.
No ombro, todo o cuidado no diagnóstico e comprensão da
patologia visará primordialmente uma terapêutica conservadora, antes de se proceder
obviamente a uma abordagem terapêutica. Esta surgirá necessáriamente da necessidade de
uma determinação em definitivo do diagnóstico ou de uma terapêutica de caracter
cirurgico. Em boa verdade, com grande frequência completam-se.
A artroscopia
do ombro tem como indicações, para além da
dor do ombro sem causa aparente e rebelde à terapêutica conservadora, as roturas do
labrum glenoideu, as pequenas roturas da coifa dos rotadores, as roturas intersticiais da
longa porção do bicipete, os corpos livres, o ombro congelado e o conflito sub-acromial.
Não tão frequentemente como nas situações precedentes , há ainda indicação na
condromatose sinovial, na artrite reumatoide, na osteoartrite e na sinovite vilonodular
pigmentada. Finalmente para um reduzido número de doentes a luxação recidivante e a
instabilidade gleno-umeral anterior, têm vindo a ser corrigidas com sucesso pela cirurgia
artroscópica.
Tal como para o joelho também a artroscopia do ombro pode
ser praticada em ambiente de cirurgia de dia, reduzindo-se assim bastante os custos e o
afastamento familiar.
No entanto, o procedimento implica ser feito sob anestesia
geral, embora em casos particulares possa ser utilizada a local.
Basicamente utiliza-se o mesmo instrumental do joelho, em
especial, a aparelhagem motorizada, (shaver ) que nesta articulação é absolutamente
indispensavel.
Como se depreenderá a sequência técnica do procedimento
não se apresenta, mas importa frisar que requer muito treino e conhecimento da anatomia
artroscópica.
Com a artroscopia a agressão cirurgica é minima e assim o
pós-operatório fácil de suportar pelo doente. Na generalidade das situações a
reabilitação inicia-se nas 12 horas seguintes e o tempo de recuperação com retoma das
actividades laborais ou desportivas, muito breve.

Embora a articulação tibio-társica se encontre tão
desprotegida como o joelho e ainda por força da sua localização, mais sujeita a
traumatismos do que ele, importa salientar que a necessidade diagnóstica ou cirurgica da
artroscopia, é aqui significativamente mais reduzida do que para o ombro.
A artroscopia da tibio-társica é uma técnica de
aquisição relativamente recente, pois que com credibilidade, apenas surgiu em 1975
aproximadamente e motivada principalmente pela dificuldade de muitas vezes não se
conseguir obter, pese embora toda a cuidada avaliação clinica e imagiológica, um
diagnóstico com consistência , de modo a poder ser aplicada a terapêutica mais
conveniente.
No entanto e mesmo assim, bastantes são as as situações
em que se pode recorrer à artroscopia quer com intenções de diagnóstico, quer
terapêuticas.
As situações patológicas em que com mais frequência se
obtém melhores resultados são : a osteocondrite dissecante do astrágalo, as fracturas
osteocondrais do astrágalo, as fracturas condrais do astrágalo e tibia, os corpos
livres, a artrite séptica e o impingment antero-externo do tornozelo. Para além destas e
nem sempre com tão bons resultados, encontram-se a osteonecrose do astrágalo, a sinovite
crónica e a osteoartrite.
Tal como no ombro, a cirurgia da tibio-társica
desenvolve-se em ambiente de cirurgia de dia, com o doente a ser submetido a uma anestesia
local. A agressão cirúrgica é também muito limitada , havendo necessidade de
normalmente se utilizarem duas vias de acesso de 5 mm.
A terminar esta breve apresentação, importa deixar a
impressão de que a artroscopia, quer do ombro quer da tibio-társica e tal como já
acontece para o joelho, não é e nem deve ser considerada como tal, a última esperança
para resolver cada problema per si.
A artroscopia para cada articulação tem sempre tempos
óptimos e precisos, para ser utilizada. Deferir situações, na conviccção de dias
melhores, será sempre comprometedor.